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VALOR ECONÔMICO: GOVERNO USA VERBAS E CARGOS PARA DEBELAR CRISE POLÍTICA

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02 de junho, 2011 por Poliana Nunes

A presidente Dilma Rousseff decidiu abrir o cofre, liberar o preenchimento de cargos no segundo escalão e mudar de postura na relação com o Congresso na tentativa de debelar a crise política e manter no cargo o ministro Antonio Palocci (Casa Civil), desgastado com a denúncia de que seu patrimônio aumentou 20 vezes no período em que era deputado federal e chefiou a campanha da presidente eleita.”O maior desafio do governo é político”, disse a presidente em almoço com a bancada de senadores do PMDB, segundo relato dos presentes. “Ninguém governa só com o Executivo”, acrescentou, em outro momento. Hoje o PT reúne a executiva do partido, mas deve evitar se manifestar sobre Palocci. Chamou a atenção, ontem, o fato de o ministro da Casa Civil não participar do almoço com o PMDB, pois tinha outra reunião agendada. Do Palácio do Planalto, foram Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral), que a cada dia se manifesta mais sobre assuntos políticos (foi quem culpou o PSDB pelas denúncias contra Palocci), e Luiz Sérgio, das Relações Institucionais.
Antes do almoço com o PMDB, a presidente reuniu a base aliada para antecipar o programa Brasil Sem Miséria, a ser lançado hoje. Um dos líderes disse ao ministro: “Se o senhor conseguir se defender do PT, no resto a gente ajuda”. Palocci respondeu: “Eu não consigo. Por favor, me ajudem”.
Aliados do ministros no PT gostariam que a executiva emitisse uma nota de apoio, o que até a noite de ontem não estava em consideração. Palocci cogitou falar hoje aos jornalistas, mas foi desaconselhado porque a notícia concorreria ou mesmo encobriria o lançamento do programa Brasil Sem Miséria.
Na tentativa de contornar a crise, a presidente faz três apostas: fortalecer Luiz Sérgio, aumentar seus contatos com a classe política e redefinir o papel de Palocci no governo.
No que se refere a Luiz Sérgio, o governo decidiu liberar cerca de R$ 500 milhões do orçamento de restos a pagar para o ministro atender às reivindicações de pagamento das emendas dos parlamentares aliados. Luiz Sérgio também recebeu de Palocci o mapa com mais de uma centena de cargos que estão sendo reivindicados por partidos governistas, com instruções de Dilma para resolver as nomeações. O temor da base aliada é que Dilma e Palocci tenham dado instrumentos para Luiz Sérgio atuar tarde demais.
É concreta a expectativa no governo de que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, não indiciará Palocci, contentando-se com as explicações complementares que o ministro enviaria ontem para o Ministério Público Federal. Dilma não quer entregar a cabeça do principal ministro político do governo apenas cinco meses depois da posse. Mas se ficar no cargo, Palocci – assim como a presidente – deve dar mais liberdade de ação para Luiz Sérgio e ele mesmo tratar de fazer uma pauta positiva para Dilma.
No almoço com a bancada do PMDB no Senado, a presidente disse que fará mais encontros com os congressistas e que é importante que os ministros recebam os senadores, que têm demandas legítimas de seus Estados. Dois assuntos dominaram a conversa: Código Florestal, que será analisado e votado pelo Senado, e medidas provisórias. No que se refere ao código, ela disse que são 11 os pontos dos quais o governo discorda, principalmente a Emenda 164. A presidente explicou que teme a repercussão da opinião pública internacional, que tem muita preocupação com o desmatamento.
Dilma estava simpática, de acordo com o testemunho dos pemedebistas, espontânea e procurou deixar todos à vontade, demonstrando interesse em tudo o que os senadores falaram. Foi paciente até mesmo com as reclamações. Pouco antes, na reunião para o lançamento do Brasil Sem Miséria, o líder do PMDB na Câmara, Henrique Alves, disse que ela deveria ter lançado o programa no Nordeste. “O ex-presidente [Luiz Inácio] Lula [da Silva] tem forte penetração no Nordeste e não podemos perder isso”. O presidente em exercício do PMDB, Valdir Raupp (RO), cobrou o compromisso do governo de duplicar a malha rodoviária federal assumido com o partido na aprovação do projeto que criou a estatal do trem-bala. Nessa mesma reunião, o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) disse que o governo administrou “pessimamente” a discussão sobre o kit gay e que a presidente não recebe os evangélicos, que apoiaram sua eleição.
Ninguém cobrou Dilma diretamente sobre cargos. Nem sequer foi mencionado o telefonema no qual Palocci ameaçou o vice-presidente Michel Temer de tirar os ministério do PMDB, devido à rebelião do partido na votação do Código Florestal.
No PT e no governo existe a avaliação de que a coordenação política não pode ser sacrificada pela derrota no Código Florestal. Isso porque ela teria construído um semestre de vitórias importantes, entre as quais os projetos do pré-sal, reajuste do salário mínimo, a criação da estatal que vai cuidar do trem-bala, a estatal dos hospitais, a criação da Autoridade Olímpica, o acordo de Itaipu e o projeto da Reserva Global de Reversão, que nem Lula conseguiu aprovar.
No almoço com Dilma, o senador Eduardo Braga (AM) defendeu a renegociação das dívidas estaduais. Ele mostrou que os Estados estão ficando asfixiados e que é preciso buscar um caminho para aumentar o nível de investimentos dos governadores. Sugeriu, inclusive, abrir a discussão sobre a troca do indexador (algo que os governadores do PT também defendem). Dilma disse que é uma discussão difícil de travar por conta da Lei de Responsabilidade Fiscal. Os senadores do PMDB defenderam a mudança no ritmo de tramitação das MPs, sob o argumento de que precisam de mais tempo para apreciar as matérias. Reclamam que elas ficam muito tempo paradas na Câmara e chegam ao Senado perto de vencer, o que faz com que a análise dos textos tenha que ser “açodada”. Dilma ouviu com atenção, mas não se comprometeu com a mudança.
FONTE: VALOR ECONÔMICO – 02/06/2011

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