Elas por elas: Servidoras atuam no ‘front’ por outras mulheres
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09 de março, 2026
Funcionárias públicas contam à coluna como é trabalhar na rede de proteção às vítimas de violência
O Dia Internacional da Mulher foi celebrado no último domingo. Ainda que os últimos dias tenham sido abalados por notícias estarrecedoras de violência de gênero, cada conquista deve ser comemorada. Uma das mais robustas é a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), que instituiu, entre outros pontos, uma rede de proteção e assistência para as mulheres vítimas de violência.
A rede costura diferentes áreas da administração para assistir essas vítimas, como delegacias, casas-abrigo e da Mulher Brasileira, defensorias e serviços de saúde. Em muitos casos, são servidoras que acolhem, cuidam, protegem e articulam políticas para essas mulheres. São elas por elas.
Não é por acaso: mulheres são maioria no país, o que se reflete também no setor público. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad) de 2025, citada pelo Anuário de Gestão de Pessoas no Serviço Público do mesmo ano, mostra que 57,8% do funcionalismo é composto por servidoras. Elas estão concentradas nas esferas municipal (66,1%) e estadual (51,1%), como mostra o anuário.
Mas ainda há um longo caminho a percorrer. As mulheres seguem sub-representadas no Executivo federal (35,8%) e ocupam apenas 40% dos cargos de liderança.
Neste 8 de março, a coluna traz depoimentos de servidoras que integram essa rede. Elas contam sobre os impactos do serviço que prestam e como, servidora e mulher, misturam-se no dia a dia da profissão. Às servidoras, um feliz Dia das Mulheres!
“A Patrulha Maria da Penha está presente no Estado do Rio desde 2019. Nosso trabalho é acompanhar mulheres que estão com medidas protetivas e garantir que não se sintam sozinhas, evitando o feminicídios. Fizemos mais de 436 mil atendimentos, mais de 117 mil mulheres foram assistidas diretamente pelo programa, e temos quase mil prisões de homens por descumprimento de medida protetiva. Não é só um monitoramento da medida protetiva. Trazemos proteção, acolhimento, luz e esperança para essas mulheres.
Costumo dizer que a patrulha é uma presença diária na vida dessas mulheres. A gente vai à casa, ao trabalho, e as recebemos nas nossas salas. Sou apaixonada pelo que faço. Com certeza, a gente impacta e transforma, trazendo dignidade e vida. Porque a gente não quer que essas mulheres só sobrevivam, a gente quer que elas vivam e tenham vida plena. É isso o que eu quero deixar para a sociedade: um legado. Toda a vida que eu transformar é um legado que eu estou deixando, é um trauma a menos naquela família.”
“Apoiamos ações que melhorem como as mulheres são atendidas na rede de apoio e no fortalecimento da atuação nas promotorias. Significa que a gente entende onde o sistema está falhando, consegue dialogar com a rede de proteção, ver o que está acontecendo e melhorar. Tornar o atendimento mais humano. Também ajudamos a pensar e a colocar em prática os projetos dentro do Ministério Público. No ano passado, fizemos uma capacitação em gênero. Recentemente, fizemos uma campanha no carnaval. Atuamos nos bastidores. Também temos campanhas nas redes sociais.
O impacto disso são as mudanças do dia a dia: quando uma mulher é atendida sem ser questionada ou desacreditada, quando o trabalho é mais rápido para agir, quando uma medida protetiva é expedida com fluxo mais rápido. É um aprendizado profundo e significativo. Às vezes, quando chega uma ouvidoria, eu penso: “poderia ser eu”. Eu me reconheço desse lado, que toda mulher corre um certo risco. Assumimos o compromisso de não naturalizar as coisas que acontecem.”
“No estado, temos um abrigo de sigilo e proteção para mulheres em risco iminente de morte. Estive na direção desse abrigo por 15 anos até ser convidada para compor a equipe da Secretaria estadual da Mulher, criada em 2023. Trago toda essa experiência, porque ser residente é estar nesse local 24 horas. Acompanhei mais de duas mil mulheres nessa situação. Na secretaria, ganho a possibilidade de dialogar com todos os municípios do estado, levando essa experiência para todos os centros especializados. No Rio são 54: três na estrutura estadual e 51 nas municipais.
Atuo justamente na superintendência de enfrentamento às violências, podendo acompanhar todos os programas que a secretaria tem a nível de proteção e prevenção. Agora, para essa rede de proteção atuar, é preciso que a mulher fale. Temos casos de mulheres que conseguiram romper o ciclo ou até que voltaram para o convívio, mas não querem mais daquela forma, porque conheceram a garantia dos direitos. Porque viver sem violência é um direito.”
“Meu trabalho é extremamente complexo. Trabalho com vulnerabilidades que impactam social e economicamente a saúde dessas pessoas. Estamos ali para poder fornecer atendimento humanizado dentro de uma estrutura majoritariamente masculina. Realizamos uma escuta especializada. Ouvimos essa mulher, ela fica livre para falar sobre tudo o que vem acontecendo sem nenhum tipo de julgamento, preconceito, respeitando diferenças e singularidades. Dentro dessa escuta, traçamos toda a linha de cuidado e proteção. Também preparamos essa mulher para o exame pericial. Enquanto equipamento de saúde, acionamos uma gama de serviços.
Somos atravessadas por muitas histórias. Infelizmente, mulheres que acabaram vítimas de feminicídio. Também há mulheres que conseguiram romper o ciclo de violência. E também já tivemos casos exitosos em que o autor foi preso. Ao mesmo tempo em que há casos que me deixam muito mal, outros conseguem equilibrar a balança e mostrar que há um propósito em ajudar outras mulheres.”
“Nosso trabalho como psicóloga é ajudar as mulheres na adaptação delas na unidade, a apoiar essas vítimas de violência. Muitas vezes, elas não vão na unidade por conta disso, mas por conta da gestação. É onde a gente entra com orientações e acompanhamento no sentido de fortalecê-las no enfrentamento dessa violência. Muitas vezes, durante o pré-natal, uma paciente hipertensa é encaminhada para a Psicologia. Quando você atende, tem como fundo uma situação de violência que ela passa. Às vezes, ela chega na emergência e relata que brigou em casa ou que foi agredida. A partir daí, você pode dar um rumo diferente para essa mulher. Muitas nem sabem que têm o direito de ir à delegacia.
Estou no Hospital da Mulher há 16 anos. Tem casos que são muito pesados, e ficamos mal só de ouvir. Mas gosto muito do que faço, principalmente quando tem retorno positivo. Saber que posso dar esse apoio, ajudar, mudar o curso da vida de alguém é importante. É por isso que estou lá até hoje.
Fonte: Extra (RJ)