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CORREIO BRAZILIENSE: UM CHOQUE DE JUROS

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24 de julho, 2008 por Poliana Nunes

O Banco Central deixou o gradualismo de lado e aplicou ontem um choque de juros no país, certo de que esse é o melhor remédio para retomar o controle da inflação e fazer com que os índices de preços convirjam para o centro da meta definida pelo governo, de 4,5%, já em 2009. Contrariando a maioria das apostas do mercado, de alta de 0,5 ponto percentual, o Comitê de Política Monetária (Copom) aumentou a taxa básica de juros (Selic) em 0,75 ponto, para 13% ao ano, o patamar mais elevado desde janeiro de 2007. Foi o segundo maior ajuste da Selic em uma reunião do Copom do governo Lula. Em fevereiro de 2003, os juros avançaram um ponto, também para conter um forte surto inflacionário. A Selic começou a subir em abril, quando estava em 11,25%.

Com a alta de ontem — antecipada por alguns bancos, que mudaram suas apostas da noite para o dia —, o BC passou dois recados. O primeiro, bastante explícito, foi o de que o ciclo de aumento dos juros será curto, mas maior do que o esperado devido à forte deterioração das estimativas de inflação para este ano, que superaram os 6,5%, teto da meta, e para 2009, que indicam 5%. O segundo aviso, implícito, foi o de que a fatura do arrocho monetário será cobrada no ano que vem, com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) despencando de 5% para algo próximo de 3%. Em compensação, já no segundo semestre de 2009, a Selic poderá cair novamente, reativando a economia o suficiente para dar uma bela ajuda ao candidato do governo à sucessão do presidente Lula em 2010.

Foi esse segundo recado, por sinal, que fez o presidente da República dar carta branca ao time comandado por Henrique Meirelles para botar a inflação nos eixos. Os fortes reajustes dos preços estão punindo os mais pobres, o grosso do eleitorado de Lula, que lhe garantiu um segundo mandato em 2006, a despeito de todas as denúncias de corrupção no governo. “Com certeza, o tombo da economia em 2009 será forte por causa do aumento dos juros. O crescimento ficará em torno de 3%”, disse o economista-chefe da Concórdia Corretora, Elson Teles. “Se o BC deixar a inflação voltar, os mais pobres devolverão tudo o que ganharam nos últimos anos com a estabilidade da economia”, complementou o consultor financeiro José Luiz Rodrigues.

Surpreendida pela postura mais rígida do Copom, a economista-chefe do Banco Real, Zeina Latif, prevê que os juros subirão mais 0,75 ponto na reunião dos dias 9 e 10 de setembro. Esse aumento deverá ser acompanhado de mais duas elevações de 0,5 ponto cada, com a Selic encerrando o ano em 14,75%. “A tendência é de que o BC feche o processo de alta da Selic em dezembro”, afirmou Flávio Serrano, economista do Banco BES Investimento. Para o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas Gomes, dependendo do comportamento da inflação, é possível que o aumento dos juros avance até o primeiro semestre de 2009.

Apesar de a maioria dos analistas apoiar o choque, ou ação “tempestiva contra a inflação” como ressaltou o BC, o clima foi de frustração no Ministério da Fazenda. O ministro Guido Mantega e seus principais assessores acreditavam que o BC pesaria menos a mão, diante da queda dos preços das commodities agrícolas e do petróleo. Antes do anúncio da decisão do Copom, o presidente Lula afirmou que o combate à inflação é “questão de honra. Nós tomaremos todas as medidas necessárias”, frisou. Inclusive o choque de juros.

Liderança negativa

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de elevar a taxa básica fez com que o Brasil disparasse no ranking mundial dos juros altos. Quando descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses, de 5,36%, os juros reais saltaram de 6,53% para 7,25% segundo cálculos da Consultoria UpTrend. As taxas reais são um dos principais indicadores considerados pelos empresários na hora de definir os investimentos produtivos. E, com o salto da taxa, a tendência é de que as empresas optem por adiar projetos de expansão para aplicar, sem risco nenhum, em títulos públicos.

Por isso, a gritaria foi geral no setor produtivo. Segundo o presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, uma política monetária restritiva, que adota alta seqüencial de juros, surge como única saída capaz de frear a inflação que está corroendo o poder de compra dos mais pobres. Mas ressaltou que a política de juros poderia ser compensada com o corte de gastos de governo. “Temos um quadro surreal de política econômica, cujo resultado é uma taxa de juros muito elevada, vitimando a sociedade com prejuízos imediatos”, assinalou.

Para o presidente do Sindicato da Indústria da Construção de São Paulo, João Cláudio Robusti, “o BC exagerou” e o efeito disso será a retração do mercado imobiliário, sobretudo em 2009. Já o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Artur Henrique, disse que os juros altos só estimularão a “especulação”. (VN)

Sinais de redução

A inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) deu novos sinais de desaceleração e cravou alta de 0,67% ante o 0,69% registrado na semana anterior. A taxa menor foi determinada, principalmente, pelos preços dos alimentos, cujo ritmo de remarcações perdeu força, passando de 1,56% para 1,44%. Esse grupo de produtos trouxe uma boa notícia para a população mais pobre: a alta dos preços do arroz e do feijão, a base da alimentação dos brasileiros, ficou em 4,32% ante os 7,67% computados na coleta anterior. Também perdeu força o aumento da carne bovina, de 7% para 6%.

O índice calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) registrou ainda deflação de 0,16% nos preços dos artigos de vestuário, devido às liquidações de inverno, depois de ter subido 0,09% na pesquisa passada. No grupo de despesas diversas, a elevação passou de 0,36% para 0,28%. “Aos poucos, a inflação está caminhando para níveis mais compatíveis com a meta de inflação definida pelo governo, de 4,5% ao ano”, disse o economista Flávio Serrano, do Banco BES Investimento. “Acredito que, já em agosto, veremos índices mensais abaixo de 0,5%”, acrescentou, diante da perda de fôlego de importantes commodities agrícolas, como o milho, o trigo e a soja, cujas cotações despencaram no mercado internacional.

Na avaliação do economista-chefe da Concórdia Corretora, Elson Teles, a desaceleração da inflação ficará mais evidente hoje, com a divulgação do IPCA-15, a prévia do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como referência para o sistema de metas do governo. A expectativa do mercado é de que o resultado fique entre 0,60% e 0,65%, depois de ter cravado 0,90% no mês passado. Os alimentos, segundo Teles, serão fundamentais para essa queda, assim como serão essenciais para que o IPCA fechado do mês também fique próximo de 0,6%.

Apesar de todos os sinais positivos emitidos pela inflação, não dá para respirar aliviado, pois os reajustes ainda estão preponderando quando são abertas as pesquisas de preços. Das sete classes de despesas que compõem o IPC-S, quatro apresentaram aceleração nos aumentos —habitação, educação e leitura recreação, transportes e saúde e cuidados pessoais. No caso do grupo alimentação, especificamente, dos 21 itens, apenas 10 ficaram mais baratos. “Portanto, não dá para acreditar que o pior já passou”, frisou Teles. (VN)

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