Consignado: o drama de servidores que dependem de empréstimos para pagar as contas

Contração de crédito ganhou força com inflação alta

Não importa se olhamos para servidores federais, estaduais ou municipais, todos carregam uma preocupação em comum: o peso dos empréstimos consignados no bolso. Para muitos, a inflação alta, que fechou o ano passado em 5,79%, e anos sem correção salarial comprimiram o poder de compra, e a operação de crédito surge como uma opção atrativa.

Na casa de um servidor que atua na gerência do INSS em Londrina (PR), que prefere não se identificar, a contração de empréstimos virou rotina desde 2017. O salário congelado não acompanhou a disparada das despesas, e hoje ele compromete até 70% de toda a renda com empréstimos, entre consignado à folha de pagamento e outros obtidos de forma privada.

Ele vai até o limite da margem consignável direto no contracheque disponível a servidores da União, de 35%, e se vê em uma “verdadeira bola de neve”.

Sem esperança de melhora, ele usa o dinheiro para despesas básicas, como aluguel e alimentação. O último empréstimo, de R$ 9,5 mil, foi contraído em novembro passado, a ser pago até 2024. Ele espera uma ligeira melhora com o reajuste de 9%, mas garante que o valor será para “sobreviver”.

Situação similar é vivida pela pensionista da Polícia Militar do Rio, Denise Mora. Quando perdeu o marido, morto em serviço em 2001, precisou sustentar sozinha uma filha de dois anos e gêmeos. Para cuidar do pagamento de aluguel e das despesas com os filhos, ela sempre dependeu do consignado.

— Como morava em região de risco, tinha que pagar escola particular para os meus filhos, e o consignado foi a forma garantir isso a eles — conta a pensionista que, hoje, compromete cerca de R$ 500 da pensão para quitar empréstimo usado para gastos com saúde e educação.

‘Não penso em pegar outro empréstimo’
Saulo Souza, servidor da Segurança Pública do Rio, precisou contrair o primeiro empréstimo logo que entrou na força, no ano passado, para comprar um carro.

— As parcelas comprometem cerca de R$ 550, em 60 meses, e eu tive que fazer isso porque, hoje, o policial não tem como ficar sem carro. Na época, comprometia 10% da minha renda, não era um dinheiro que estava sobrando. Tanto que não peguei o empréstimo logo que cheguei, e nem penso em pegar um novo hoje, mesmo ganhando mais. Minha renda aumentou, mas meus gastos acompanharam. Eu sou casado, tenho uma filha de 3 anos e minha esposa não trabalha. Só somando a escola da minha filha, o plano de saúde que pago por fora e as compras de supermercado, dá quase metade do meu salário.

Margens variam por ente federativo
O limite para o comprometimento de renda com empréstimos a servidores varia de acordo com cada ente federativo. No governo federal, lei sancionada no final do governo Jair Bolsonaro, em 2022, aumentou para 45% o total do salário que pode ser descontado em folha.

Já para servidores estaduais, há a limitação de 40% no comprometimento de renda direto na folha de pagamento. A medida foi atualizada em 2022, quando a margem era de 35%, em linha com o movimento feito pelo governo federal como fôlego ao funcionalismo durante a pandemia.

Servidores da Prefeitura do Rio, por outro lado, têm a maior margem, de 55% — 45% para consignados regulares, 5% para cartão de crédito e 5% para operações de cartão consignado de benefício.

Fonte: Extra (RJ)

 

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